Cápsula de ômega 3 faz mal para o coração?
Ela pode aumentar o risco de fibrilação atrial, a arritmia mais comum do mundo. Nos estudos com doses altas, o grupo que tomou ômega 3 teve entre 48% e 69% mais casos dessa arritmia do que o grupo de comparação. Não é veneno, mas é um risco real em troca de um benefício que, na população geral, não apareceu.
O que a evidência mostra
Fibrilação atrial é uma desorganização elétrica que faz o átrio do coração bater de forma caótica. Os sintomas costumam ser palpitação, cansaço, falta de ar e tontura. O problema maior não é o sintoma. É que o sangue deixa de circular direito dentro do átrio, formam-se coágulos, e esses coágulos podem ir para o cérebro e causar AVC.
Três ensaios clínicos apontaram na mesma direção. No REDUCE-IT houve 48% mais hospitalizações por fibrilação atrial no grupo do ômega 3. No STRENGTH, 69% mais. No OMEMI, 84% mais, perto do limite da significância estatística.
Em 2025, uma análise do UK Biobank publicada no Journal of the American Heart Association, com centenas de milhares de pessoas, associou o uso regular de ômega 3 a maior risco de fibrilação atrial em quem era previamente saudável.
A explicação biológica é plausível. Em doses altas, o ômega 3 se incorpora às membranas das células do átrio e muda como o sinal elétrico se propaga. Em algumas pessoas, essa mudança aumenta a chance de o ritmo se desorganizar.
O que não fazer
Não comece a tomar por conta própria imaginando que suplemento não tem risco porque é vendido sem receita. Aqui a evidência de dano é mais consistente do que a de benefício.
E repare em quem costuma ser o alvo da propaganda: pessoas com triglicérides alto, hipertensas, com sobrepeso, diabéticas ou com apneia do sono. É exatamente o mesmo perfil que já tem risco maior de fibrilação atrial na largada.
Quando isso merece um cardiologista
Se você toma ômega 3 e sente palpitação, pulso irregular, cansaço novo aos esforços ou falta de ar, procure avaliação. Fibrilação atrial é diagnosticada com um eletrocardiograma simples, e às vezes precisa de um monitoramento de 24 horas para ser flagrada.
Se você toma por indicação médica por causa de triglicérides muito alto, mantenha a conversa com quem prescreveu. O balanço entre risco e benefício nesse caso é individual.
Dr. Mateus Prata
Cardiologista clínico e intervencionista · CRM-SP 196766 · RQE 120135
Revisado em 17 de agosto de 2026