Dr. Mateus Prata
RESPOSTAS

Ômega 3 previne infarto?

Não. Somando mais de 50.000 pessoas em ensaios clínicos, a cápsula de ômega 3 não reduziu infarto, AVC nem morte cardiovascular na população geral. Comer peixe oleoso três vezes por semana continua sendo uma boa ideia. A cápsula que promete substituir esse peixe, não.

O que a evidência mostra

Em 2020 a Cochrane, que é a referência mundial em revisão de evidências, analisou 86 estudos randomizados somando 162.796 participantes. A conclusão foi que aumentar a ingestão de ômega 3 de cadeia longa, o EPA e o DHA que vêm do peixe, tem pouco ou nenhum efeito sobre mortalidade geral, mortalidade cardiovascular ou eventos cardíacos importantes.

Para evitar uma única morte por doença cardíaca, 334 pessoas precisariam tomar a cápsula por vários anos.

O estudo REDUCE-IT, de 2018, é o que sempre aparece na propaganda. Ele testou 4 g por dia de EPA puro em 8.179 pessoas de alto risco e mostrou 25% menos eventos cardiovasculares. O detalhe está no grupo de comparação: o placebo usado foi óleo mineral, que sabemos hoje que aumenta o LDL e marcadores de inflamação. Quando o estudo STRENGTH repetiu o mesmo desenho em 13.078 pessoas, usando óleo de milho como comparação, o benefício desapareceu.

A história que fundou esse mercado veio dos esquimós da Groenlândia, nos anos 70. Em 2020, pesquisadores dinamarqueses acompanharam 2.924 esquimós por quase 10 anos, medindo os níveis reais de EPA e DHA nas células do sangue. Não encontraram associação com risco cardiovascular. A hipótese não se confirmou nem na população que a originou.

O que não fazer

Não troque o peixe pela cápsula. Comer peixe oleoso aparece de forma consistente associado a menor mortalidade cardiovascular, e a cápsula não replica isso. Um filé de salmão traz proteína de alta qualidade, selênio, vitamina D, iodo e vitamina B12 junto. A cápsula isola dois ácidos graxos.

Vale também conhecer um efeito colateral pouco divulgado. Os mesmos estudos modernos que mostraram ausência de benefício encontraram mais fibrilação atrial no grupo do ômega 3. No REDUCE-IT foram 48% mais hospitalizações por essa arritmia. No STRENGTH, 69% mais. Fibrilação atrial é a arritmia mais comum do mundo e pode formar coágulos que chegam ao cérebro.

O perfil de quem mais é incentivado a tomar ômega 3, com triglicérides alto, hipertensão, obesidade ou apneia do sono, é o mesmo perfil que já tem risco maior de fibrilação atrial.

Quando isso merece um cardiologista

Triglicérides acima de 500 mg/dL é outra conversa. Existe um papel específico de altas doses de EPA em fórmula prescrita, dentro de um tratamento estruturado e com monitoramento. Isso é farmacoterapia, não suplemento de balcão.

Se você está em hemodiálise, o estudo PISCES, publicado em 2025, mostrou redução relevante de eventos cardiovasculares. É possível que nesse grupo a suplementação esteja corrigindo uma deficiência real, e a própria revista pediu um estudo confirmatório antes de mudar a prática. Vale levar o assunto ao seu nefrologista.

Se você já toma e se sente bem, não há urgência em parar. Mas a conversa honesta sobre custo e benefício vale a pena.

Dr. Mateus Prata

Cardiologista clínico e intervencionista · CRM-SP 196766 · RQE 120135

Revisado em 17 de agosto de 2026

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